Muros e poesias: “Livro de Rua no Bolso” reúne imagens de intervenções literárias em Fortaleza

Escrito por Diego Barbosadiego.barbosa@svm.com.br 00:00 / 28 de Setembro de 2020. Atualizado às 08:49 / 28 de Setembro de 2020

Com lançamento virtual previsto para outubro, obra convida público a transitar pela Capital por meio de fotografias de trabalhos realizados em 2015, por meio do projeto “O Livro de Rua – Uma cartografia poética da cidade Iracema”

Sob a lente da literatura, o ordinário se transmuta. Desperta interesse pelo ínfimo, o aparentemente banal. É um jogo de percepções que se fortalece à medida que os sentidos se apuram e convocam a novas possibilidades. Em 2015, quando trouxe a público a obra “O Livro de Rua – Uma cartografia poética da cidade Iracema”, Sivirino de Caju, junto a dezenas de outros artistas, empenhou-se em fazer exatamente isto: proporcionar um distinto mergulho no cotidiano fortalezense por meio da “impressão” de poesias em paredes e muros.

A forma como essa ideia se materializou é de encher os olhos. Primando pela interdisciplinaridade, a iniciativa combinou literatura e artes visuais de modo a povoar a Capital cearense de afetos, traços e palavras. O livro ia sendo apreciado à medida que a urbe também era. Adentrando os portais de uma Fortaleza nativa, os integrantes da ação foram até rios, lagoas e praias que tivessem nomes oriundos da cultura indígena, passando ainda por vielas da parte histórica da cidade. Além disso, atravessaram mais de 40 bairros, deixando nesses espaços um desejo de fôlego e imensidão.

Neste ano, esses matizes voltam a ganhar amplitude com a segunda edição da obra. “Livro de Rua no Bolso” propõe a redescoberta de peculiaridades urbanas por meio de fotografias das ilustrações e poemas espalhados pela Capital, agora com a possibilidade de que as pessoas carreguem esse compilado de registros consigo. “Para levar e se deixar levar pelas ruas da cidade”, conforme anuncia o projeto.

Legenda: Projeto que culmina no “Livro de Rua no bolso” promove encontro entre poesia e artes visuais pelos muros de FortalezaFoto: José

Previsto para ser lançado virtualmente na segunda semana de outubro por meio de parceria com a Rede Cuca, o livro foi contemplado em um edital da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor) e, após pré-lançamento no dia 11 de setembro, está disponível na loja FreeLancer Discos, localizada no bairro Quintino Cunha. A tiragem é de mil exemplares e reúne imagens de 50 poemas e 50 ilustrações advindos das intervenções outrora realizadas.

“Na ocasião do lançamento, distribuiremos vários livros para quem estiver acompanhando; também faremos doações às bibliotecas da Capital, públicas e comunitárias”, detalha Sivirino de Caju, idealizador e organizador do material. Assim agindo, ele espera estar incentivando a leitura e as artes urbanas, legitimando a literatura como arte de rua.“É aquela ideia da flor, de ter cores (representadas pelas ilustrações) e perfume (simbolizado pelos poemas) para atrair as abelhas. O próprio projeto pede isso”, reitera o profissional.

Ele também elenca o que diferencia a primeira desta nova edição. Naquela, o panorama se concentrou no universo do grafite, percebido pelos admiradores das artes visuais – sobretudo as juventudes dos bairros contemplados pelo projeto, dentre eles Vila Velha, Jardim Iracema, Pici, Bom Sucesso, Bom Jardim, Canindezinho, Praia de Iracema, Centro e Pirambu. “A partir da exposição que houve na Rede Cuca em 2018, o ‘Livro de Rua’ também foi notado pelas pessoas que fazem literatura na cidade”, conta.

Conexões

Isso se deve à proeminente entrega dos artistas envolvidos na ação, seja no gestar de palavras ou no semear de desenhos. Anderson Oliveira, Eduarda de Lemos Pinho, Evenir Moura, Henrique Dídimo, Naná Blue, Ítalo Rovere, entre outros, compõem o ofício de escrita de poemas; por sua vez, Narcélio Grud, Ceci Shiki, Joelma Moreira e Solrac, para citar apenas alguns, trabalham entre tintas e pincéis. A intenção desse formato híbrido de trabalho é proporcionar um maior alcance das criações – tanto por parte dos artistas envolvidos quanto para o público em geral.

A maneira aglutinadora de fazer e ecoar arte não para por aí. Um site foi criado a fim de disponibilizar a trajetória do projeto, desde o livro de grafite nas ruas, passando pela exposição nos corredores dos Cucas até chegar nas bibliotecas por meio do livro de bolso. Vídeos, fotografias, mapas, textos e visitas virtuais no Google My Maps possibilitam, assim, o acesso a todas e todos sem sair de casa.“A literatura (de rua) é a alma do Livro de Rua Cidade Iracema, desde o muro até o papel. As artes visuais são o corpo. É um projeto híbrido, mas surgiu pela poesia”, destaca Sivirino.

Não à toa, configura-se como uma carta de amor a Fortaleza e às próprias pessoas e seus sentimentos. Atravessando as distintas paisagens do lugar, suscitam outros modos de vivenciá-lo e encará-lo de frente.

Novos contornos

Sivirino de Caju adianta que o próximo “Livro de Rua” já está em andamento, mediante conversas com a equipe organizadora e parceiros. Assim como esta edição, a que vem chegando contará com apoio do Edital das Artes da Secultfor.

No novo volume, será possível incluir outros bairros no percurso, assim mais localidades poderão fazer parte dessa escrita literária a céu aberto, entre geografias. “Já está sendo providenciada uma nova rota poética, na qual trabalharemos a partir de uma nova técnica das artes visuais. Provavelmente, será lançada nas paredes e muros de Fortaleza ainda neste ano”, situa o idealizador do projeto.

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