77% dos pequenos negócios do CE têm crédito negado pelos bancos

Por Redação, 23:15 / 15 de Abril de 2020

Pesquisa do Sebrae mostra que micro e pequenas empresas estão tendo dificuldades para adquirir empréstimos das instituições financeiras, apesar das medidas de facilitação do Governo Federal

NEGÓCIOS

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Pequenos negócios buscam alternativas em meio a isolamento socialFoto: Helene Santos

Mesmo com os pacotes lançados nas últimas semanas pelo Governo Federal para ampliar o crédito a microempreendedores individuais (MEIs) e micro e pequenas empresas e reduzir taxas de juros, quase 77% dos pequenos negócios cearenses que já buscaram empréstimos no sistema financeiro, desde o início da pandemia no novo coronavírus, tiveram o pedido negado. A constatação é da pesquisa “O impacto da pandemia do coronavírus nos pequenos negócios”, realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae), no período de 3 a 7 de abril deste ano.

É o caso, por exemplo, do microempresário Bruno Pessoa (31 anos). Atuando há cinco anos no ramo de informática, ele conta que não consegue crédito nos canais de dois bancos dos quais é cliente. “Uma semana antes do isolamento, um dos bancos me ofereceu crédito. Quando começamos o isolamento social, eu fui atrás disso, e eles tinham cancelado essa oferta. Sempre que eu tento nos canais de atendimento, vem a mensagem de serviço indisponível”.

Ele diz ainda que procurou alternativas de contato com os bancos, mas não obteve resposta. “Eu tentei pelo telefone, mas a ligação cai e não consigo resolver isso. Quando consigo falar, eles me dizem que eu posso fazer pelo aplicativo, mas o serviço nunca está disponível”.

O microempresário relata diversos problemas enfrentados por conta da crise. “Houve uma redução de até 40% no número de atendimentos que eu faço depois da crise. Cerca de 20% dos meus clientes não honraram os contratos, e eu estou sem receber. E o banco não facilita meu crédito”, desabafa Pessoa, que diz ainda atender em média dois clientes por semana.

Adaptação

O diretor técnico do Sebrae-CE, Alci Porto, acredita que o problema seja relativo à adaptação. “Eu quero crer que é uma necessidade de adequação dos bancos, das normas, do atendimento. Eu não quero crer que os bancos, com os recursos disponíveis que eles já têm, estejam criando dificuldades para as empresas neste momento terem acesso ao crédito”, avalia.

“O Sebrae está conversando com as entidades bancárias que não dá para elas praticarem o mesmo atendimento bancário que faziam antes da crise. Não cumprir com as novas medidas é remar contra tudo que está sendo feito. É um processo de adaptação”, aponta Porto.

O levantamento do Sebrae ainda revela que os donos de pequenos negócios do Ceará afirmaram que conseguem ficar fechados e ainda assim terem dinheiro para pagar as contas somente por até 22 dias, em média.

“Passando esse período, elas não sobrevivem. O Sebrae em 10 dias montou um sistema de atendimento online. Nós não tínhamos nada preparado e passamos de 26 mil clientes atendidos. Se o Sebrae conseguiu isso, os bancos devem fazer um esforço dobrado”, reitera.

Bancos

O último levantamento parcial da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), da semana passada, aponta que as instituições financeiras receberam, de 16 de março a 8 de abril, dois milhões de pedidos para renegociação de prazo de pagamento de empréstimos, que correspondem a R$ 200 bilhões.

Segundo o presidente da entidade, Isaac Sidney, os desembolsos das instituições para grandes empresas aumentaram em cinco a dez vezes porque companhias que antes captavam recursos na Bolsa tiveram forte desvalorização por causa da pandemia e agora buscam crédito nos bancos.

“O problema é que são valores vultosos que se tornam significativos para a liquidez do setor bancário e que causam oscilações em termos de risco e captação. Os bancos continuam monitorando o risco de crédito e de inadimplência e há um esforço para que pessoas físicas e pequenas e médias empresas tenham taxas de juros mantidas nas negociações e novas concessões. Precisamos encontrar um equilíbrio”, disse Sidney em transmissão ao vivo promovida pela Necton na última segunda-feira (13).

Ainda segundo o presidente da Febraban, os bancos emprestaram entre R$ 330 bilhões e R$ 350 bilhões nas últimas três semanas, um volume muito superior à média mensal registrada pelas instituições no primeiro trimestre deste ano, de R$ 290 bilhões.

“Isso mostra que os recursos estão chegando na ponta para os clientes e que estamos focados em conceder crédito. Além disso, de 85% a 90% dos pleitos das empresas para a linha de financiamento da folha de pagamento estão sendo atendidos”, disse Sidney, que afirmou ainda que R$ 140 bilhões de R$ 200 bilhões pedidos já foram renegociados pelos bancos até agora.

Novas ferramentas

Para o professor do Departamento de Contabilidade da Universidade Federal do Ceará (UFC), Érico Veras Marques, não adianta tentar resolver um problema novo com uma solução antiga. “Se eu tentar resolver uma situação nova com ferramentas antigas eu não vou resolver. Eu preciso conceber novas formas de garantias para os bancos. As instituições não vão conseguir dar crédito usando a mesma forma de analisar isso. É preciso encontrar mecanismos diferentes. E para isso, é sentar e conversar com governos e setor financeiro”.

De acordo com ele, é preciso ainda avaliar as facilidades faladas e como os processos funcionam na prática. “Quando eu vou pegar algum recurso, eu preciso ter informações confiáveis. Geralmente a contabilidade das empresas não reflete a realidade. Muitas vezes o banco quer uma garantia. No momento que ele pede isso e o empreendedor não tem, o banco não fornece o empréstimo”, avalia.

O professor diz ainda que uma das saídas para os micro e pequenos negócios é estudar alternativas para manter a empresa. “Primeiro, olhar o que eu posso oferecer à distância para o meu cliente. Tem negócios que são extremamente complicados. Eu posso também fazer vendas antecipadas e posso cortar despesas”.

Informação

O levantamento do Sebrae mostra ainda que quase 63% dos pequenos negócios cearenses apenas ouviram falar das medidas econômicas de estímulo aos pequenos negócios adotadas pelo Governo Federal. “Talvez um dos vírus mais terríveis que estamos convivendo é a desinforma-ção. O empreendedor que não estiver bem informado ele está cavando um processo de falência. A falta de informação não gera para ele a percepção de oportunidade”, aponta o presidente do Sebrae-CE.

Porto reforça o papel do Sebrae nesse processo de orientação das empresas. “O Sebrae pode ajudar com informações organizadas de maneira que o empresário possa entender o que é importante para ele. Nós estamos com uma bateria de consultores para orientar os empresários no sentido de administração de pessoal, de capital, todo o procedimento administrativo”.

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