Caminhos artísticos na quarentena: práticas possíveis

Escrito por Ana Beatriz Fariasbeatriz.farias@svm.com.br 00:00 / 12 de Junho de 2020.

Encontrar a arte, do ponto de vista do fazer, é bonito demais. Mas, mais que isso, é necessário, sabe? É outra coisa, outra história

A essência artística hora nos acolhe, hora nos invade e tem o poder de traduzir o mundo por uma infinidade de formas. Isso a gente já sabe. Temos falado bastante disso, afinal. Do quanto a classe artística – para a qual sequer há ministério específico neste Brasil pandêmico – tem feito por nossas almas reclusas.

Acontece que, depois de uma conversa com uma leitora-amiga, dessas que vão noite adentro, pus-me a pensar sobre a falta que a exteriorização da arte que mora dentro da gente pode fazer a todos nós. Ou, ao menos, a tantos de nós, em um momento desses.

Ela me falava de um receio, que eu certamente sentiria no lugar dela: o de não conseguir, de algum modo, concluir o curso de teatro, projeto que se prometeu realizar no início do ano, quando nenhuma de nós imaginava (e quem poderia?) o que 2020 reservava à humanidade. Falei, a bem da verdade, o que acredito: as coisas hão de tomar forma, tudo há de se ajeitar. Você e sua turma não serão privadas dessa experiência.

É o que imagino e também o que desejo, porque vejo o comunicar artístico como inerente ao ser. Com isso, a gente tende ao belo, ao transcendental. Tem quem possa – e queira – fazer isso em quadros que irão valer fortunas alguns anos depois, tem quem junte gente e faça da calçada palco para contar história, tem quem transforme o espelho em quadro, tem quem faça maravilhas com agulhas de crochê…

As formas são muitas e diversas, mas o suspirar e o transpirar, pelo que noto, se assemelham tanto. Tem a ver com a experiência de sentir-se vivo. Existir. Criar. Transformar pra melhor.

Não é possível que não haja meios, indaguei-me enquanto alongava a reflexão sobre a conversa da madrugada. Não é possível que, na hora em que mais carecemos respirar, falte o ar.

Ainda durante a madrugada, sempre nela, fiquei pensando sobre o quanto de mim ia cada vez que eu me prometia tocar nos meus pincéis e tintas de novo e deixava pra depois. Sobre o quanto de mim nem tinha a possibilidade de existir cada vez que eu não me dispunha a “artesanar” a vida.

Foi pensando sobre o quanto da gente fica pelo caminho que, antes que visse, já tinha escrito essa carta-convite. De tanto querer que essa dimensão essencial da vida não seja mais esquecida – por mim ou por ti -, estou aqui.

Janelas e possibilidades – artes visuais 

Para dar ideia, digo: tenho visto muitas iniciativas por aí, a fim de trazer o fazer artístico para perto, para dentro. Ainda no início da quarentena, vi cursos da Faber Castell, que geralmente envolvem o universo das artes visuais, sendo liberados gratuitamente online (alguns ainda estão sem custo no site). Em plataformas mais generalistas, como a Coursera e a Udemy, é possível encontrar outro leque de possibilidades nesse sentido (haverá, ali, em ambas, projetos gratuitos e pagos).

Mas o que realmente pretendo destacar são algumas mulheres admiráveis que estão sempre disponibilizando conteúdo que podem acordar o potencial criativo que há na gente. Começo com Juliana Rabelo. Ilustradora aqui da terrinha, ela sempre compartilha aprendizados no campo da ilustração e da aquarela. Ela é professora, o tom é didático e dá vontade de aprender. Nas redes, costuma divulgar quando vai ministrar cursos específicos. 

Marina Viabone, de São Paulo, é outra artista inspiradora para seguir em tempos de recolhimento social. Ela tem um canal no Youtube, em qua dá diferentes toques para quem quer aventurar-se no mundo das letras desenhadas. Ah! O clube que ela mantém de lettering (conteúdo pago, com mais exclusividade) está com inscrições abertas até esta sexta.

Para encerrar a listinha das artistas visuais, Mika Serur. Foi com ela, virtualmente falando, que eu dei meus primeiros (e vários outros seguintes) passos na aquarela, embora a mistura de tinta e água não seja o único suporte utilizado pela multiartista, que transforma, com beleza, muita coisa por aí.  A Mika tem vasta produção no youtube. Vale a pena o passeio.

Outras formas de estar presente

Voltando ao teatro, que, como eu disse lá em cima, foi o catalisador para toda essa reflexão sobre desenvolver o lado artístico em tempos duros, é interessante ver que muita coisa é feita também no intuito de redescobrir as artes cênicas destes tempos e nestes tempos.

Vila das Artes, por exemplo, tem reinventado os encontros e possibilitado que, por meio da internet, projetos como a “Formação Continuada em Teatro – conexões contemporâneas” continuem acontecendo. Vale ressaltar que as inscrições pro próximo módulo do curso estão abertas para ouvintes. Mais informações aqui.  

Ainda é possível inscrever-se também para cursos ofertados pelo Cangaias Coletivo Teatral, que já contava com o ensino como vertente, e está realizando, durante a quarentena, as formações “Atuar para poder voar”, “Tecituras dramatúrgicas” e “Ateliê de ações performativas”. 

Isto não é uma lista, tá? 

Longe de pretender elencar aqui tudo de interessante que pode ser feito por ti nessa quarentena, fiz esta breve reflexão, seguida de tópicos que me atravessaram nos últimos dias, apenas para sugerir que é possível (aos poucos, com uns minutinhos de cada dia reservados pra isso ou mesmo investindo em um curso maior e mais denso) driblarmos a loucura dos dias com arte, ainda que vivamos num tempo-espaço completamente desconhecido. De consequências imprevisíveis, mas para as quais precisamos nos preparar. E talvez, por isso mesmo, nos forçando a usar mais do que dez por cento de nossos potenciais cerebrais. 

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