Coronavírus: água e sabão são produtos raros na periferia de Fortaleza

Por Emanoela Campelo de Melo, emanoela.campelo@svm.com.br 06:00 / 28 de Abril de 2020

A disseminação da Covid-19 e a alta taxa de mortalidade nas comunidades socialmente mais vulneráveis da Capital desafiam o poder público.

Higienizar as mãos com água e sabão ou álcool em gel. Manter bons hábitos de higiene é recomendação básica das autoridades de saúde para evitar a contaminação pelo novo coronavírus. Mãos limpas previnem várias doenças, não só a Covid-19, mas quando o vírus chega à periferia, mais uma vez, a segregação se impõe e mostra que o acesso ao básico nem sempre é direito adquirido por todos.

Em muitos lares da periferia de Fortaleza falta água encanada, saneamento básico e, quando chove, a lama toma conta do piso e das paredes das moradias de estrutura precária. Coincidentemente ou não é na periferia onde a taxa de mortalidade pela Covid-19 é maior, segundo dados estatísticos da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).”Se não tem sabão, imagina álcool. É artigo de luxo”. O relato da assistente social Adriana Gerônimo, 30, moradora da Comunidade do Lagamar, na Aerolândia, revela um medo embasado na realidade: sem o mínimo, como é possível controlar uma pandemia se alastre nos aglomerados urbanos?

A comunidade do Lagamar é uma das muitas onde, segundo a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), a rede de esgoto não chega para todos. Contrastando com a realidade encontrada pela reportagem, a Cagece informou que Fortaleza conta com 98,65% de cobertura do serviço de abastecimento de água e 62,54% de cobertura de esgotamento sanitário.

Adriana mora no Lagamar desde que nasceu. Segundo ela, na região, duas pessoas morreram devido à Covid-19. Outros inúmeros casos seguem sob suspeita. A assistente social participa da entidade Lagamar em Ação, projeto que arrecada alimentos, produtos de higiene e máscaras para os moradores da região. Todas as doações obtidas são entregues para a vizinhança.

Flourish logo

A Flourish map

Sem isolamento

A ausência do isolamento social é percebida com clareza na rotina do Lagamar e de tantas outras comunidades de Fortaleza. “As casas são pequenas, sem circulação de ar. Apostamos na medida de redução de danos. Tentamos fazer com que os materiais de higiene cheguem ao maior número de moradores. Aqui, a rua é a extensão da nossa casa”, disse a assistente social.

Metros à frente da casa de Adriana mora Regina Jaqueline da Silva. A dona de casa conhece o Lagamar há ainda mais tempo: 37 anos. “Saí da maternidade e vim para cá. Eu trago na memória essa situação precária. Na minha casa, hoje, só quem trabalha é meu esposo. Aqui, graças a Deus, a gente tem água e sabão. O que não temos é esgoto. O mais perto é o que tem lá na esquina”, afirma.

As dificuldades enfrentadas pelas duas moradoras do Lagamar também estão presentes na realidade de quem mora na Comunidade do Gengibre, no bairro Manuel Dias Branco. O local, de acordo com o estudo de desenvolvimento humano de Fortaleza, elaborado pela Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico do Município, a partir do Censo Demográfico de 2010, apontou tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Capital no que diz respeito ao quesito longevidade.

Barracos

No Gengibre, à beira da Lagoa, moram dezenas de pessoas em barracos erguidos com paredes de tábua. Sem água, sem esgoto, sem energia e sem banheiro. São os vizinhos dos arredores que as ajudam a sobreviver. Silvanete Rodrigues reside no Gengibre, em uma casa construída a cerca de 50 metros de distância da lagoa.

A dona de casa afirma agradecer todos os dias por não ter nenhuma confirmação de pessoa infectada pelo novo coronavírus na comunidade. “A gente procura se prevenir lavando as mãos e vamos vivendo com a ajuda de voluntários. O que tem de álcool e máscara é tudo doação. O carro do lixo não está mais entrando aqui. Vem um rapaz em uma moto três vezes por semana e leva o que dá. A Lagoa também não está mais sendo limpa. Isso preocupa a toda comunidade. Tem muita gente que usa, todos os dias, a água dessa Lagoa”, afirmou.

No caso da comunidade do Gengibre, a Cagece admite que o local não possui rede de esgoto disponível. A Companhia acrescenta que, “de acordo com a legislação, nos locais onde não há rede de esgotamento disponível, os proprietários dos imóveis são responsáveis pelo descarte adequado dos dejetos gerados”.

Bom Jardim

O Bom Jardim é outro bairro que sofre com a desigualdade e o medo da expansão da Covid-19. A localidade foi considerada a de pior IDH no quesito renda. Segundo Rogério Costa, do Centro de Defesa da Vida Hebert de Souza, existem 41 favelas no Grande Bom Jardim e a maioria das famílias vivem com menos de um salário mínimo.

Maria Leda Menezes, de 52 anos, entende desta realidade. Dona de casa, mãe de 12 filhos e avó de três netos, ela é diabética e mora em uma região do Bom Jardim onde é comum problemas na distribuição da água. A família não tem caixa d’água em casa e, por isto, depende do fornecimento regular. Quando falta água, depende da boa vontade dos vizinhos ou utiliza do pouco dinheiro que recebe para comprar água e lavar as mãos.”Dois filhos e três netos moram comigo, mas não tem máscaras para todo mundo. Quem usa sou eu e a minha menina de 12 anos. Aqui é muita gente, álcool em gel não dá vencimento. Na semana passada, faltou água e compramos um garrafão para ficar lavando as mãos. Foi assim que a gente se resolveu. Aqui no beco tem água parada, tem mato em todo canto. Eu olho para tudo isso e sei que a gente vive abandonado”, lamenta.

Para Rogério Costa, a realização de trabalhos voluntários no Bom Jardim e em demais bairros da periferia da Cidade, neste momento de pandemia, não é importante só pela entrega dos produtos arrecadados. “As pessoas realmente sentem esse abandono. São comunidades que já estavam em crise e, quando chega a Covid, aí fica tudo mais difícil. Junto com as cestas, com os kits de higiene, acaba chegando (para eles) a sensação de não estar totalmente esquecido”, salienta.

Ações

Por nota, a Companhia disse que trabalha para ampliar o serviço de esgotamento sanitário em Fortaleza, com objetivo de alcançar a universalização. Informou ainda que durante o estado de emergência com o novo coronavírus está garantindo a prestação do serviço com reforço nas operações de abastecimento de égua e esgotamento sanitário, além de medidas protetivas.

A reportagem também entrou em contato com a Prefeitura de Fortaleza por meio da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS) e Coordenadoria Especial de Articulação das Secretarias Regionais (Coareg) a fim de obter informações sobre ações adotadas em prol dos moradores das periferias durante a pandemia da Covid-19. No entanto, foi informada que a Prefeitura não se posicionaria sobre o assunto.

arte

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.