Estudantes enfrentam desafios no preparo à distância para o Enem

Por Barbara Câmara, barbara.camara@svm.com.br 06:30 / 27 de Abril de 2020

Longe das salas de aula, os alunos do terceiro ano do Ensino Médio, nas redes de educação pública e privada, enfrentam desafios diferentes, mas compartilham frustrações no caminho rumo a uma vaga no Ensino Superior

Na etapa final da vida escolar, o nervosismo é lugar comum. A princípio, apenas alguns meses separam os estudantes do terceiro ano e as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No último dia 17 de abril, a Justiça Federal determinou que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) faça a adequação d o calendário e do cronograma das provas à realidade do atual ano letivo, alterado em razão da pandemia.

O Ministério da Educação (MEC), por sua vez, informou que recorrerá à Justiça para tentar anular a decisão. As datas do Enem digital, porém, já foram adiadas; ao invés dos dias 11 e 18 de outubro, devem ser aplicadas nos dias 22 e 29 de novembro. Por enquanto, a modalidade impressa permanece com as datas originais: 1º e 8 de novembro.

Além da pressão que acompanha o período, os alunos precisam lidar com a rotina de ensino a distância. Para alguns, em especial, na rede pública de educação, o primeiro obstáculo é a acessibilidade. Samuel Lima, estudante do terceiro ano do Ensino Médio da Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Santo Amaro, situada no Grande Bom Jardim, os estudos têm se baseado em arquivos online enviados pelos professores através de um grupo no WhatsApp. O jovem, de 19 anos, explica que a leitura, escrita e explicações presenciais facilitam sua aprendizagem, agora desafiada pelos vídeos e conteúdos na Internet.

“Pra tirar dúvidas, eu ligo para os professores. Alguns atendem, outros não. Pra mim é mais fácil assim, ficar em redes sociais não é o meu forte”, revela. Segundo ele, os arquivos com conteúdos das aulas e atividades começaram a ser enviados diariamente, logo após a suspensão das aulas.

Samuel destina tempo para os estudos pela manhã e à tarde, até as 17h, com uma pausa apenas para o almoço. Os esforços são motivados pelo sonho de cursar Medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC), mas não descarta outras instituições. Ele vem fazendo as provas do Enem desde o primeiro ano do Ensino Médio, para praticar. Já na reta final, algumas expectativas foram frustradas pela epidemia do coronavírus.

“É meio difícil, isso acontecer logo neste ano. Fiquei um pouco mais nervoso. Eu queria mais aprendizado, mas não está entrando, por conta dessas coisas que estão acontecendo”, conta. Em casa, as distrações são um desafio a mais. “É muita gente, barulho direto, e acaba distraindo um pouco”, diz. Entre os colegas de turma, o apoio se dá também pelo WhatsApp. Ele ajuda outros estudantes com a redação, assunto que domina melhor, e pede explicações sobre outras matérias.

Samuel Lima
Samuel Lima está tendo dificuldades para estudar em casa pelo barulho e a tensão pelo momento da pandemiaFoto: Kid Jr

Aulas virtuais

Na casa da estudante Ana Beatriz Ximenes, de 17 anos, as preocupações são outras. A jovem é aluna do Colégio Ari de Sá Cavalcante, e conta que não teve aulas online na primeira semana de suspensão de atividades presenciais. Já na semana seguinte, foram disponibilizadas as aulas virtuais. “É como se a gente estivesse em sala de aula. A única coisa que fica a desejar é que não tem interação, para tirar dúvidas nem nada do tipo. Mas a dinâmica do professor é muito parecida, e eu não sinto quase nenhuma diferença em relação à aula presencial”, diz.

No momento, a rotina de Ana já é mais similar à que tinha durante o período letivo normal. Para ela, manter a disciplina é a parte mais difícil do processo. “Eu acordo todos os dias no mesmo horário. Fico em uma parte da casa que eu escolhi pra estudar, que é a sala. Eu já coloquei alarmes no meu celular que tocam nos mesmos horários que os alarmes do colégio. Eu estudo à tarde, então tento trazer essa realidade para dentro de casa para não deixar cair minha produtividade”, detalha.

As aulas são gravadas pelos professores e disponibilizadas no site YouTube. Segundo Ana, alguns professores compartilham seus números de WhatsApp para tirar dúvidas dos alunos, mas o processo ainda é complicado. “Essa é a parte que eu sinto mais falta. Por mais que estejamos todos tentando nos adaptar, não é a mesma coisa que o presencial. Eu sinto falta desse contato”, lamenta.

A jovem se divide entre as possibilidades de cursar Química ou Engenharia Química no Ensino Superior. Além do Enem, ela espera prestar vestibular para universidades fora do Ceará. Ela conta que, em comparação ao início do ano, quando as aulas corriam normalmente, o nervosismo já aumentou.

“A gente tem a insegurança de não saber se está estudando o suficiente, de não saber o que os outros alunos estão fazendo, e não saber quando as aulas vão voltar, como vai ser. São muitas coisas passando pela cabeça”, desabafa Ana.

Cronograma

Para o secretário executivo de Ensino Médio e Profissional da Secretaria da Educação do Estado (Seduc), Rogers Mendes, a recomendação é de que o MEC reveja o cronograma de aplicação do Enem, a fim de recuperar tempo e conteúdo e evitar que os alunos se sintam prejudicados. “A gente compreende que essa interação dos estudantes uns com os outros, estudando juntos, também é um fator importante de preparação. E há algumas instituições especializadas em avaliação propondo que o MEC e o Inep revejam esse cronograma, colocando para fevereiro (de 2021), que é tempo em que a gente conseguiria restabelecer as atividades presenciais”, pontua.

Ele explica que, a fim de minimizar o desnível entre os alunos da rede pública e os da rede particular nesse período, a Seduc optou por não adotar a antecipação das férias escolares. Quando as aulas foram suspensas, segundo Mendes, a Secretaria ampliou uma parceria já estabelecida com a empresa Google, que oferece uma plataforma de aulas virtuais e possibilita a interação entre professores e estudantes ao vivo.

“A gente tem toda uma plataforma chamada Enem na Rede, que possui conteúdos que cobrem praticamente toda a matriz de referências do Enem. Estamos veiculando aulas todo dia em um canal de televisão, com foco no Enem, na perspectiva de diversificar o repertório para que ninguém se prejudique”, diz.

Além das plataformas já oferecidas, outras 12 cederam seus conteúdos didáticos à Seduc, após uma chamada pública feita pela Pasta. Assim, foram disponibilizadas videoaulas, gravadas por professores, que podem ser acessadas pelos alunos a qualquer momento. Materiais impressos também estão sendo entregues em domicílio para alunos sem acesso à Internet. “A logística é um pouco mais complexa, mas em algumas escolas está sendo a única forma. Enviamos esses materiais complementares que a própria escola elabora”, ressalta o secretário executivo.

O recurso de disponibilizar materiais impressos também foi adotado em algumas unidades da rede privada. “O aluno pode se identificar, entrar, pegar uma apostila que seria entregue nessa data, e sair rapidamente, evitando aglomerações”, explica Oto de Sá Cavalcante, diretor-presidente do Colégio Ari de Sá Cavalcante. As unidades permanecem fechadas para atividades.

Ele acredita que não haverá perda em relação aos conteúdos do ano letivo, mas que poderá ser necessário encurtar o período das férias no resto do ano. “Os pais, às vezes, se sentem punidos quando damos aula em feriado, por exemplo, mas vai haver um sacrifício mais na frente”, avalia.

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