Falta de acesso à tecnologia e à informação são gargalos para pagamento de auxílio emergencial


Especialistas temem que início do pagamento cause aglomerações nas agências e eleve contaminação FOTO: JOSE LEOMAR

Por Hugo Renan do Nascimento, hugo.renan@svm.com.br 23:30 / 07 de Abril de 2020 ATUALIZADO ÀS 00:37 / 08 DE ABRIL DE 2020

Indisponibilidade da rede bancária em municípios do Interior e risco de aumento da contaminação por aglomerações em agências são desafios apontados

Após o Governo Federal lançar ontem (7) o calendário de pagamento do auxílio emergencial – que varia de R$ 600 a R$ 1.200 – e todas as condições para o cadastro dos trabalhadores informais que não estão inscritos em nenhuma plataforma, como Cadastro Único, o próximo desafio a ser superado na transferência de renda a esse segmento da população é fazer com que o recurso chegue à essas pessoas.

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Segundo especialistas e economistas, diversos fatores fazem com que este dinheiro não alcance a ponta de forma universal. Eles citam a falta de informação, o acesso à tecnologia e a indisponibilidade da rede bancária em vários municípios do interior do Ceará.

Para o professor do curso de Economia Ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Aécio Alves de Oliveira, um dos problemas a serem enfrentados pelas pessoas mais carentes é a falta de acesso à tecnologia e também à informação. “Cria-se um problema sério, principalmente, para os mais necessitados e para os mais velhos. Isso pode, inclusive, gerar oportunismo, ou seja, algumas pessoas vão se aproveitar dessa situação”, explica o professor.

Ele diz que, mesmo simplificados, os programas de cadastro, como aplicativos e sites, são muito sofisticados para essas pessoas. “Isso poderia ter sido simplificado se tivesse dado às prefeituras municipais essa missão, que fariam um planejamento de maneira mais simples. E isso ocorre porque o Governo está numa disputa política de querer mostrar serviço”, acrescenta.

Oliveira também afirma que regionais e órgãos municipais poderiam dar conta de atender esse público, tanto na fase de cadastro como no pagamento do benefício. “Nas regionais, você tem o cadastro e o endereço das pessoas. Tem outros órgãos das prefeituras disseminados pelas cidades, você tem as areninhas que seriam outro ponto. Você poderia ter agências bancárias nesses locais desconcentrando as pessoas”.

O professor defende o pagamento do auxílio de forma descentralizada. “Evidentemente que a minha proposta não está pronta, mas a ideia é que esse processo seja descentralizado, e a estrutura das prefeituras permite essa descentralização”, aponta.

Uma das saídas sustentadas por ele é que o Governo Federal emita um cartão de débito para os beneficiários que precisam abrir uma conta na Caixa. “Um cartão que seria aceito no local de compra, até para universalizar o acesso ao dinheiro”, sugere.

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Risco de contaminação

Já de acordo com Júlio Ponte, professor do Departamento de Teoria Econômica da UFC, a rede dos Correios poderia dar um suporte à Caixa Econômica Federal para realizar os pagamentos do auxílio. “É mais um obstáculo essa ida ao banco. Eles deveriam usar os Correios também porque a Caixa não vai dar conta. Até mesmo para impedir a aglomeração de pessoas”, opina.

Esse ponto é reforçado pelo economista Ricardo Eleutério, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), que reitera que a ida ao banco por elevado número de pessoas pode aumentar os riscos de contaminação pela covid-19. “Uma parte desse grupo tem que ir presencialmente às agências. Isso vai exigir maiores procedimentos de segurança como distância entre as pessoas. Vai ter o risco de reunião de pessoas no mesmo ambiente”, pondera.

Ele ainda reforça que em muitas cidades do interior do Estado não há agências bancárias por conta, muitas vezes, dos episódios de explosões de bancos e da própria tendência de redução do número de agências físicas pelas instituições financeiras.

Com esse cenário, aponta o professor Júlio Ponte, aprofunda-se ainda a problemática relacionada ao deslocamento dos beneficiários, principalmente em cidades do interior. “O maior problema vai ser mesmo o deslocamento das pessoas que moram em locais que não têm transporte intermunicipal. A própria logística das pessoas chegarem na boca do caixa para pegar esse recurso é um problema”, destaca ele.

Segundo Ponte, a dinâmica de pagamentos não vai ocorrer no curto prazo. “Vai ter dificuldade de logística, porque como vai atender milhões de pessoas em um curto espaço de tempo. Isso vai demorar um certo tempo para verificar todas as pessoas no sistema, mesmo nas plataformas online. Não vai ser uma coisa muito rápida não. Essas iniciativas eram para ter sido feitas antes da situação do coronavírus ter piorado”.

Preocupação

Para Ricardo Eleutério, outra preocupação diz respeito às fraudes que podem atingir trabalhadores informais que não têm domínio tecnológico e educação digital. “A experiência brasileira mostra que há algumas perdas no caminho. Há desvios de recursos para algumas pessoas que serão socorridas por outras de má fé”, destaca Eleutério.

No entanto, Eleutério reitera que o auxílio emergencial, com todas as dificuldades operacionais que podem surgir, é uma medida importante. “Ela vai sobretudo ao encontro dos interesses dos que têm a renda zerada ou reduzida por conta do coronavírus. São coisas (os problemas) que serão ajustadas. A medida vai amenizar o sofrimento dessa fração da população”.

Corrida desnecessária

O Sindicato dos Bancários do Ceará alertou ontem que, nesse momento, não é necessária uma corrida às agências para receber o benefício. Lembrando que o próprio presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, declarou que o processo será digital e que “o comparecimento de beneficiários às agências só ocorrerá em último caso”, a entidade recomenda que a população não vá às agências.

“A preocupação da categoria neste momento é que com o início do pagamento do auxílio emergencial, por conta da pandemia do coronavírus, ocorra uma corrida às agência”, informou o sindicato em nota. “Nossa principal preocupação é com a vida da população e dos trabalhadores. Por isso, estamos orientando as pessoas a não irem às agências”.

Segundo a Caixa, o dinheiro será depositado numa conta especial, chamada poupança social digital. Ela será aberta automaticamente em nome do beneficiário, sem a necessidade de apresentar documentos ou ir à agência.

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