Hospitais usam tecnologia para informar familiares sobre pacientes

Por Felipe Mesquita, felipe.mesquita@svm.com.br 06:30 / 04 de Maio de 2020

Sem poder liberar a permanência de acompanhantes para pessoas com Covid-19, médicos atualizam estado de saúde por telefone e tablets; parentes relatam dificuldades de contato em unidades públicas de Saúde

Corpos fragilizados pelo novo coronavírus, além da assistência hospitalar, necessitam de afago. Suporte emocional e até um toque podem atuar na estabilização do quadro clínico. Em leitos de Covid-19, essas carências se intensificam, sobretudo porque pacientes não podem ter acompanhantes. Estes, do lado de fora, anseiam por notícias – as quais, muitas vezes, não têm chegado de forma adequada, segundo denunciam.

O Protocolo de Manejo Clínico do Coronavírus na Atenção Especializada, elaborado pelo Ministério da Saúde, recomenda a suspensão de visitas sociais a pacientes internados em hospitais de referência ou de retaguarda. A medida é uma forma de prevenir novas contaminações pelo Sars-CoV-2, uma vez que a transmissão da doença se dá pelo contato físico, quando não há obediência à etiqueta respiratória e higiene das mãos.

Em Fortaleza, enfermarias e UTIs de unidades geridas pela Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), para o atendimento prioritário de pessoas com Covid-19, só podem ser acessadas por profissionais da equipe médica. Assim, pacientes internados ficam isolados nos leitos, sem a presença de acompanhante, conduta obrigatória que se repete desde o início da pandemia no Ceará.

As informações acerca da evolução do estado de saúde dos pacientes, então, devem chegar aos familiares de uma outra forma. Se antes os médicos repassavam o boletim pessoalmente, a comunicação acontece agora via ligação telefônica. A depender da forma como os enfermos reagem ao tratamento intensivo, podem ainda ver os parentes por meio de videochamada.

Dinâmica

No Hospital Leonardo da Vinci, uma equipe intersetorial de assistentes sociais, médicos e psicólogos é responsável pelo estreitamento de laços entre a unidade e a família. O equipamento de saúde pertence à rede privada, mas foi requerido pelo Governo do Estado, no mês passado, para ampliação da capacidade operacional de atendimentos. Portanto, é da Sesa a tarefa de administrar e desenvolver as práticas assistenciais.

Logo após o acolhimento do paciente, a família é procurada para entender a dinâmica de internação e de como se manterá atualizada. Nessa etapa, a equipe identifica, por meio do Sistema Integrado de Saúde, qual parente terá contato direto com os médicos. A assistente social Elizabete Almeida aponta, contudo, que nem sempre o contato é bem sucedido. “Às vezes, os telefones que estão no sistema são antigos, foram da pessoa quando ela fez o cartão do SUS, por exemplo, mas não pertencem mais a ela; ou pode ter havido erro de digitação dos números”, explica.

Quando o procedimento falha, inicia-se uma investigação junto às unidades de origem e à Central de Regulação do Município. “Geralmente, a gente entra em contato com a unidade de onde o paciente foi encaminhado para ver se eles receberam informações novas, mesmo que não tenham sido incluídas no sistema ainda”, detalha a assistente social.

Outro fator que gera ruídos de comunicação são os “vínculos familiares fragilizados”. Na prática, o contatante recebe o retorno sobre o paciente, mas não repassa para os demais parentes. Em vez de buscar o representante da família, alguns membros chegam a procurar o hospital em busca de informação, o que não é recomendado. “Sempre pedimos que a família colabore conosco, compartilhando essas informações entre si, porque diante da demanda, não temos condições de ligar para cada parente”, esclarece Elizabete.

Ainda assim, a movimentação de familiares na unidade é intensa. A dona de casa Maria do Socorro, 69, por exemplo, reclamava da dificuldade em obter notícias sobre o marido, ao falar com a reportagem na semana passada. “Ligo para cá, pergunto e quero saber como ele está e não me informaram nada”, lamenta. Ela soube apenas que o esposo de 69 anos, internado há mais de 10 dias, estava reagindo bem ao tratamento, após conversar com uma assistente social.

O trabalho dos médicos começa até três dias depois da admissão do paciente, para o repasse dos primeiros esclarecimento clínicos. O prazo deverá ser mantido, tendo em vista o aumento de internações na unidade. “Conseguimos falar como está o caso do paciente, e o quanto ele precisa de oxigênio e de suporte para se manter vivo”, aponta a médica Ianna Lacerda, que também atua no Hospital Leonardo Da Vinci.

O que os familiares mais questionam é se o paciente “está falando, comendo bem, se é grave e se tem chance de sobreviver”. O retorno perante às respostas é imediato. “80% dos casos ficam extremamente agradecidos, e mesmo os 20% que não receberam muito bem a notícia, até o final do contato ficam mais tranquilos e conscientes da situação”, pontua Ianna.

Visual

O hospital já implementa a “visita virtual” para pacientes de média complexidade que estão conscientes e sentem menos dificuldade de respirar. A unidade dispõe de três tablets para videochamadas com as famílias, que podem acontecer diariamente.

Conforme a psicóloga do Leonardo da Vinci, Narjara Bezerra, a estratégia diminui o nível de ansiedade dos doentes. “Tem aqueles que preferem não falar com a família para não deixá-los preocupados, mas a maioria opta por fazer a visita virtual. A gente percebe que eles ficam menos ansiosos, mais tranquilos e a saudade de casa diminui”, ressalta. Além disso, os enfermos têm acesso à psicoterapia e à escuta breve focal.

Por meio de nota, a Sesa salientou que os tablets foram doados pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). A previsão, cita a secretaria, é de que mais 50 unidades sejam enviadas em até 15 dias, quando serão repassadas a outras unidades de apoio aos contaminados pelo novo coronavírus.

O Hospital Geral de Fortaleza (HGF) já recebeu parte dos itens e aguarda a chegada de mais equipamentos, de acordo com a médica Ivna Cavalcante. “Alguns chegaram, mas estamos vendo a melhor maneira de uso”, diz. A expectativa é de que o recurso tecnológico traga alívio. “Nós esperamos que isso leve um conforto maior para família e paciente, e aproxime mais essas distâncias”.

Para a família da técnica de enfermagem Juliana Cardoso, 23, o “conforto” veio depois de muita angústia – e durou pouco. Com a avó de 79 anos internada no Hospital Emergencial Presidente Vargas (PV) desde 24 de abril, a neta soube informações nos dias 25 e 26, mas depois chegou a passar três dias sem notícias da idosa. “A gente tentava ligar, mas nunca conseguia saber nada direito. Foi quando publiquei nas redes sociais e consegui saber dela na quarta-feira (29), por meio de funcionários de lá que estavam de plantão”, relata.

Na quinta (30), segundo Juliana, o hospital “fez videochamada, bem rápida, mas suficiente pra conversar e ver que estava tudo bem”. A família tentou um novo contato no sábado (2), mas foi informada que mais informações não podiam ser passadas naquele momento e que as videochamadas com parentes estavam limitadas a uma por semana. A última notícia, repassada por conhecidos, é que a idosa ainda não estava conseguindo respirar sem auxílio.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) foi procurada pela reportagem para falar sobre a abordagem de comunicação e a periodicidade dos contatos nos dois hospitais da rede. A assessoria de comunicação informou que, devido à quantidade de demandas, não forneceria fonte do Hospital do PV, mas indicou que o Diário do Nordeste procurasse o Instituto Dr. José Frota (IJF) 2. Esta unidade, porém, não respondeu à solicitação formalizada por e-mail.

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