Inadimplência, lançamentos adiados e vendas difíceis: a crise no mercado imobiliário do Ceará

Com cerca de 100 canteiros de obras paralisados, setor descarta crescimento de 3% previsto para este ano e estima retomada somente em 2021

Por Áquila Leite

pós um grande desempenho no quarto trimestre do ano passado, quando registrou crescimento de 7,68% em seu Produto Interno Brunto (PIB), a construção civil cearense estava otimista para 2020, com a projeção de avançar 3% e movimentar cerca de R$ 2 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) no ano. Com a crise do coronavírus, entretanto, o cenário atual é bem diferente para o mercado imobiliário do Estado, que provavelmente não verá grandes lançamentos tão cedo, terá dificuldades para fechar negócios e ainda lidar com uma possível alta na inadimplência, considerada “inevitável” por alguns representantes do setor.

Presidente do Sindicato das Construtoras do Ceará (Sinduscon-CE), Patriolino Dias de Sousa diz que a projeção de crescimento de 3% “já não é mais uma realidade” e que o setor, que está com obras paralisadas desde o dia 19 de março em decorrência do isolamento social no Ceará, somente deve retomar seu crescimento em 2021. “Infelizmente, temos um cenário nebuloso, pois não sabemos ao certo quanto tempo o isolamento vai durar. Isso sem contar que uma crise econômica começa a se instalar. Alguns empresários devem começar a demitir nos próximos dias, situação que nos preocupa muito”, comenta. Neste domingo, 19, o governador Camilo Santana prorrogou a suspensão das atividades não essenciais até o dia 5 de maio.

Ao todo, o Ceará conta com cerca de 100 canteiros de obras paralisados, de acordo com o Sinduscon-CE. Para Patriolino Dias, como ainda não há sinalização para uma retomada total ou parcial das atividades, também deve ser revista a previsão de que novos lançamentos começariam a ocorrer com mais intensidade no segundo semestre deste ano, principalmente com empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida (MCMV) e compactos de alto padrão. Recente pesquisa de mercado realizada pela Brain Inteligência Corporativa revelou, inclusive, que apenas 13% dos incorporadores brasileiros pretendem manter o ritmo de lançamentos, enquanto outros 35% devem adiar seus projetos sem sinalizar datas para retomá-los.

A mesma pesquisa revela que 45% dos consumidores que tinham intenção de adquirir um imóvel antes da pandemia já desistiram. “Em termos práticos, podemos dizer que, com uma crise dessa relevância, as pessoas efetivamente deixam de fazer negócios e isso gera um impacto no setor imobiliário”, pondera Patriolino Dias. No primeiro bimestre, ainda sem os efeitos do coronavírus, o Ceará registrou 747 vendas, movimentando R$ 295 milhões. O balanço dos próximos meses deve ser bem diferente. “Não existe ânimo das pessoas para comprar imóveis. Isso requer um plano de vida, uma melhoria de status. No momento, isso não existe”, diz Sérgio Porto, presidente do Sindicato da Habitação do Ceará (Secovi-CE).

Sérgio destaca que não é possível estimar o tamanho da queda nas negociações do mercado imobiliário cearense, mas que o ritmo é “quase insignificante dentro do que seria a normalidade”. Ele ressalta que outra consequência será o aumento da inadimplência, principalmente entre as pessoas que trabalham por conta própria. “Quando falamos de condomínio, por exemplo, também englobamos residenciais onde as pessoas são mais sensíveis à crise, como os do Minha Casa, Minha Vida”, pondera. Ele garante, porém, que ainda não houve grande impacto financeiro na arrecadação de condomínios no Estado. “Só tivemos um mês de pagamento após a crise, que foi entre os dias 5 e 10 de abril. Então, ainda estamos no início”. 

Ainda segundo o presidente do Secovi-CE, não há, por parte da entidade, uma recomendação geral sobre as pessoas que não pagarem as taxas de condomínio. Conforme diz, as negociações são feitas caso a caso pelos síndicos, que entram em contato com os moradores para entender a situação. “Não há um modelo único, pois é preciso conhecer a realidade daquela pessoa. Quem tem histórico de bom pagador costuma procurar o administrador para explicar o débito”, informa. Sérgio diz que o mesmo se aplica aos locatários. “Às vezes é mais interessante para o locador manter aquele bom inquilino, que se encontra em dificuldades temporárias, do que deixar o imóvel vazio. Vai gerar mais problema”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.