PDT prepara bases no Nordeste e mira o DEM em oposição ao PT

Por Letícia Lima, leticia.lima@svm.com.br 23:30 / 22 de Janeiro de 2020 ATUALIZADO ÀS 07:18 / 23 DE JANEIRO DE 2020

As capitais nordestinas, redutos petistas, são cobiçadas por vários partidos de centro-esquerda. Pedetistas tentam articular com PSB, Rede, PV e DEM para se contrapor ao projeto do PT; Fortaleza também está no radar das negociações 


Na eleição municipal de 2016, PDT, DEM e PT (especialmente na figura do governador Camilo Santana), foram os fiéis da balança da reeleição

As eleições de outubro serão um teste para reacomodação das forças políticas, sejam elas ligadas à direita, à esquerda ou ao centro: todas de olho em 2022. Partidos como PDT, PSB, Rede e PV articulam alianças regionais, principalmente no Nordeste, para tentar se contrapor ao projeto do PT. O DEM, legenda de centro, também está na mira do PDT para composição em capitais nordestinas. Em Fortaleza, porém, a aliança com o Democratas segue indefinida.

As articulações com legendas de centro-esquerda vêm sendo capitaneadas pelo PDT, tendo à frente o ex-ministro Ciro Gomes e o presidente nacional do partido, Carlos Lupi. No Ceará, o presidente interino da sigla pedetista, Cid Gomes, e o deputado federal André Figueiredo tocam as negociações. Com o DEM, as tratativas foram iniciadas no ano passado, envolvendo o prefeito de Salvador, ACM Neto, que comanda a sigla em âmbito nacional, e o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia. 

ARTICULAÇÃO

Nordeste 

A aproximação busca fechar acordos, especialmente no território nordestino, reduto do PT. Por exemplo, em Salvador (BA), o PDT tenta costurar uma aliança com o DEM, para indicar o candidato à sucessão de ACM Neto ou a vice na chapa encabeçada por um candidato do Democratas. Nos bastidores, especula-se que o fechamento dessa aliança visaria à eleição de 2022, quando ACM demonstra interesse em disputar o Governo da Bahia. 

Em João Pessoa (PB), as conversas têm o objetivo de consolidar o apoio do PDT à eventual candidatura à Prefeitura do ex-vereador do DEM, Raoni Mendes. Em troca, o DEM poderia apoiar o secretário de Turismo da Paraíba, Renato Feliciano, presidente do PDT no Estado, à Prefeitura de Campina Grande, outra cidade estratégica na Paraíba. 

Em Recife (PE), uma aliança também seria vislumbrada, na tentativa de minar uma provável candidatura do PT – da deputada federal Marília Arraes – ou outra apoiada pela sigla petista, que pode ser a do deputado federal João Campos (PSB), filho do ex-governador, morto em acidente aéreo, Eduardo Campos. Neste caso, o PSB pode ser o fiel da balança na disputa, ao decidir sobre a candidatura própria e suas alianças. 

Na disputa pela Prefeitura de São Luís (MA), PDT e DEM também dão gestos de que não farão parte da coligação dos partidos, incluindo o PT, que apoiam o governador Flávio Dino (PCdoB). Nomes já são cotados como pré-candidatos dos partidos: pelo PDT, o presidente da Câmara Municipal de São Luís, Osmar Filho, e pelo DEM, o deputado estadual, Neto Evangelista. 

Fortaleza 

As negociações entre PDT e DEM também miram, claro, a eleição em Fortaleza, administrada, hoje, pelo prefeito Roberto Cláudio, que é do PDT, e cujo vice, Moroni Torgan, é do DEM. Todas as lideranças pedetistas frisam que é prioridade nacional do partido eleger um sucessor na capital cearense. Acontece que, no ano passado, o comando nacional do Democratas abriu diálogo com a oposição no Estado. 

O presidente da legenda, ACM Neto, teve conversas com o deputado federal Capitão Wagner, presidente do Pros no Ceará, e um dos pré-candidatos à Prefeitura de Fortaleza. Nos bastidores, ACM sinalizou a possibilidade de lançar candidatura própria na Capital, o que levou Wagner a cogitar se filiar ao DEM e, assim, levar a sigla para a oposição. 

Ao mesmo tempo, ele correu para negociar o apoio do partido com o presidente estadual do DEM, empresário Chiquinho Feitosa, principal liderança da sigla no Estado. As tratativas, porém, não tiveram êxito. No entanto, Feitosa mantém, reservadamente, conversas com outros partidos de oposição, como o PSL, presidido pelo deputado federal, Heitor Freire, que ensaia pré-candidatura em Fortaleza; e o PSDB, que também aponta a pré-candidatura do ex-deputado Carlos Matos. 

Apesar desses movimentos, integrantes do núcleo duro do PDT no Ceará garantem, nos bastidores, que o DEM seguirá na base governista. Pedetistas sustentam que o Democratas não tem capilaridade política no Estado, nem um nome forte para a disputa. Além do mais, fontes ligadas ao DEM afirmam que o vice-prefeito, Moroni Torgan, tem a expectativa de ser indicado ao cargo na chapa pedetista.

O deputado estadual, João Jaime, único representante do Democratas na Assembleia Legislativa e muito ligado ao empresário Chiquinho Feitosa, diz que, apesar das tratativas a nível nacional, um alinhamento no Ceará não é “automático”. Ele cobra uma conversa com o PDT para rever “os termos do acordo”. 

“A nossa preferência (de aliança) é o PDT, mas isso depende de uma conversa. Não pode chegar e meter goela abaixo. A relação que o PDT tem com o DEM hoje é da eleição passada, em que o Moroni foi indicado a vice. Hoje o DEM tem outros interesses: fazer uma bancada significativa de vereadores, bancada estadual e federal”, elencou. 

Bloco 

Enquanto as negociações com o DEM se (des)enrolam dentro e fora do Ceará, a estratégia do PDT de se aliar com outros partidos do bloco de centro-esquerda avança mais rápido. O presidente licenciado do PDT no Ceará, deputado federal André Figueiredo, explica que as tentativas de parcerias com partidos como o PSB, Rede e PV ocorrem porque eles têm um bom diálogo no Congresso Nacional “e isso faz com que a gente tenha uma aliança eleitoral”. 

Dentre esses partidos, Figueiredo destaca o PSB como um aliado “preferencial no Ceará e no Brasil”. E, de fato, o partido, presidido no Estado pelo deputado federal Denis Bezerra, tem sido estratégico para o grupo governista. Na disputa para vereador de Fortaleza, por exemplo, muitos ex-vereadores e suplentes aliados de Roberto Cláudio, que pretendem concorrer, em outubro, estão sendo “encaminhados” para o PSB, porque em outros partidos da base o nível de votos é alto. 

Na eleição majoritária, Denis Bezerra diz que ainda está analisando o apoio à futura candidatura do PDT, mas sinaliza para isto. “Tudo leva a crer que estaremos dentro da coligação majoritária. O nosso foco agora é a vereança, mas vamos trabalhar a majoritária”, limitou-se a dizer o deputado federal.

Estratégia em capitais tem freio no Interior

Apesar dos movimentos em busca de outros partidos do campo de centro-esquerda, mirando a hegemonia do Partido dos Trabalhadores, o PDT deve fazer aliança com o PT nas próximas eleições. No Ceará, por exemplo, as duas siglas têm uma aliança estadual em vários municípios cearenses. Exceto em Fortaleza, alvo de disputa dos partidos, PT e PDT devem marchar juntos. O presidente licenciado do PDT, André Figueiredo, nega restrições ao Partido dos Trabalhadores nas articulações tocadas pela legenda pedetista. 

“Em vários municípios, estaremos juntos. Agora, o PDT, desde 2018, que se apresenta como alternativa diferenciada do PT, tanto que colocamos a candidatura do Ciro (Gomes,ex-ministro) e ela representa o que nós queremos de diferente do Brasil, então a nossa articulação pode desaguar não apenas nas eleições municipais, mas em 2022”, afirma André Figueiredo. 

Já o deputado federal cearense José Guimarães, vice-presidente nacional do PT, disse que fazer aliança com DEM está fora do “cardápio” do partido e vai construir as alianças necessárias para se manter no páreo. 

“Recuperar as velhas oligarquias no Nordeste não faz parte do nosso cardápio. Vamos ter candidato em Fortaleza, Natal, Aracaju, Maceió, Recife, Salvador, Teresina. Agora vamos conversar e ver o que é possível. Como diz o Lula (ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva), até para negociar, a aliança tem que ter força”, pontua. 

Apoio da rede

A Rede priorizará alianças com o bloco de partidos de centro-esquerda, que vem sendo articulado em âmbito nacional. Por isso, segundo o secretário de organização política da legenda no Ceará, Aécio Holanda, a Rede deve apoiar o PDT na disputa em Fortaleza.

Relação com o PV

Já o PV, no Ceará, não deve seguir o grupo governista nas eleições em Fortaleza. O presidente municipal do partido em Fortaleza, deputado federal Célio Studart, afirma que vai lançar sua pré-candidatura à Prefeitura.

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