Resíduos de petróleo cru serão investigados em oito pontos do CE

Escrito por Redaçãometro@svm.com.br 00:00 / 02 de Setembro de 2020.

Um ano após o aparecimento do petróleo cru no litoral cearense, pesquisa inicia-se em setembro para verificar os impactos da poluição na água, na areia e em espécies de animais para verificar os danos à saúde marinha

Desde que as porções densas de petróleo cru começaram a invadir o litoral nordestino, alcançar as areias e causar a morte de animais marinhos, completa-se um ano sem respostas sobre os responsáveis pelo derramamento. Também não se tem a dimensão exata dos prejuízos trazidos pela poluição, mas uma pesquisa em oito pontos do Ceará deve encontrar respostas sobre os resíduos das substâncias na água, faixa de terra e em espécies marinhas, com recursos do programa Ciências do Mar, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Foram escolhidas áreas onde o impacto da substância poluente foi maior, como na Sabiaguaba, Estuário do Rio Jaguaribe, Jericoacoara, Icapuí, Cumbuco, Icaraí, Praia do Canto Verde e Canoa Quebrada. “A gente vai começar a fazer as coletas em setembro porque a gente não pôde ir para o campo no período de lockdown (do novo coronavírus), o que prejudicou um pouco. Nós vamos fazer a análise na água, na areia da praia, nos organismos e, em um ou dois meses, nós vamos saber muito mais coisas do que a gente sabe hoje”, detalha Marcelo de Oliveira, professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), na Universidade Federal do Ceará (UFC). O processo também é articulado com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado (Sema).

Cerca de 39.775 kg de petróleo cru e agregados foram removidos no Ceará, como registra a Sema. Pelo menos 48 pontos do litoral foram afetados e 10 animais mortos pelo óleo no período, de acordo com o último boletim feito pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, publicado em março. Espaços de relevância para a vida marinha, como as Unidades de Conservação (UCs) também foram atingidas: oito delas no Estado e 59 no País, como verificou um estudo científico da UFC em publicação internacional no dia 28 de fevereiro deste ano. Três pessoas deram entrada em hospitais devido à intoxicação pelo contato com óleo no ano passado, conforme o registro da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

No entanto, a ameaça que mudou o cenário do mar foi se fragmentando a ponto de se incorporar aos espaços sem ser vista. “Uma hipótese, que a gente vai analisar, é que no Ceará o ambiente é de muita energia, tem muito vento e muita onda, e isso mantém a dinâmica do ambiente. Com certeza (a substância) está na água, mas a gente ainda não sabe quanto, no sedimento, tanto na areia da praia quanto no fundo do mar, e nos organismos”, explica o professor. Serão analisados caranguejos, tartarugas, peixes e moluscos dos lugares onde o mapeamento será feito.

Investigações

As substâncias também são analisadas em parceria dos cientistas cearenses com apoio do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, para caracterizar quimicamente o óleo e produzir novas evidências para identificar os culpados pelo derramamento. Essa análise segue relevante pelo princípio do “poluidor pagador”, como explica Marcelo de Oliveira, sobre o intuito de também punir e conseguir recursos para minimizar os impactos. “Esse óleo é uma mistura industrial, não é uma coisa natural que saiu do fundo do mar. A gente tem avançado nas investigações, estamos fazendo pesquisa com o MIT e está muito perto sair”.

Em nota, a Marinha do Brasil informou que “conduz, de forma ininterrupta, desde o aparecimento dos primeiros vestígios de óleo nas praias, uma investigação complexa, contando com a participação de diversas instituições, técnicas, científicas e especializadas, brasileiras e estrangeiras e tem trabalhado de forma cooperativa com o inquérito criminal instaurado pela Polícia Federal (PF)”. Um relatório foi entregue à PF com informações que podem contribuir para identificar a origem do crime ambiental, como explica a nota, e “os trabalhos permanecerão até que o responsável seja identificado”.

Animais

São cinco espécies de tartarugas marinhas vivendo no litoral cearense e os impactos de petróleo cru atingiram ao grupo com maior intensidade. Foram 150 encalhes com a verificação de contaminação por óleo em cerca de 30 deles de setembro do último ano ao fim de agosto de 2020, como contabiliza o Grupo de Tartarugas Marinhas (GTar), do Instituto Verdeluz. Os voluntários também monitoram os ninhos dos animais, em áreas como na Praia da Sabiaguaba, em Fortaleza, onde as manchas também avançaram..

“Com relação ao óleo não se sabe exatamente o que provoca no organismo dos animais silvestres porque não existem estudos relacionados à isso de forma específica, mas a gente sabe que é tóxico, bem provável que cause inflamação no trato do intestino, o petróleo cru é corrosivo”, explica Alice Frota, bióloga e voluntária do Verdeluz. Um novo encalhe de animal morto, no dia 20 agosto deste ano, verificou contaminação por óleo após necrópsia. O grupo depende da contribuição de banhistas para registrar os casos fora da Capital.

Os esforços para monitorar os ninhos dos animais foram afetados negativamente pela pandemia do novo coronavírus devido às restrições de circulação desde março no Ceará. Alice explica que esse trabalho se concentra entre os meses de janeiro à junho e ainda não foi retomado por causa da pandemia, mas antes disso chegou-se ao registro de 25 ninhos no Estado.”Tem encalhado bastante tartarugas adultas, em época de reprodução, então existe a possibilidade dos adultos, que deveriam estar indo para suas áreas de reprodução, estarem sendo afetados pelo óleo e acabarem não indo desovar”, aponta a hipótese do Instituto.

A Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) informou, por nota, “que conforme monitoramento, este ano, não há registro de manchas de óleo nas praias do município de Fortaleza”. O acompanhamento preventivo da orla e o desenvolvimento de ações de limpeza, quando necessário, é realizado com apoio do Ibama, Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), Sema e Marinha do Brasil, como explicou o órgão municipal.

Sustento

Para os próximos anos, ainda há de se mitigar os prejuízos de quem desde o início acompanha os sofrimentos produzidos pela contaminação do litoral. “Tem a questão da reparação das comunidades, porque quem sofreu mais foram os pescadores, marisqueiras, quem tem pequenas pousadas e que, agora, foram golpeadas novamente pelo novo coronavírus”, destaca Marcelo de Oliveira.

Na Foz do Rio Jaguaribe, a pescadora Maria Eliene Pereira do Vale, de 50 anos, viu sua autonomia ir embora por causa do óleo. “Afetou o nosso trabalho porque ficamos sem poder vender, a rejeição era muito grande, onde dizia que o pescado e os mariscos eram do Rio Jaguaribe, ninguém queria comprar nas feiras e nos mercados”. Algumas organizações deram suporte para os trabalhadores afetados.

“Hoje, um ano depois desse derramamento, continua a dificuldade de saber o que comemos. Nunca houve análise da água ou do marisco para saber se estaria contaminado”.

Os pescadores e marisqueiras também organizaram a campanha Mar de Luta.

“Esses rios e marés são sagradas. São nossos corpos e nossas vidas que estão dentro. Não é habitat só dos peixes porque é dali que a gente tira o nosso sustento”, argumenta Maria Eliene.

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