Vendedor grava brincadeiras para distrair a mãe idosa no isolamento

Por Melquíades Júnior, verso@verdesmares.com.br 06:00 / 07 de Abril de 2020

Crônica é a primeira da série “Histórias de passar os dias”, sobre quem se reinventa em tempos de quarentena

Felicidade de mãe é ter o filho perto. Alegria de filho é ver a felicidade da mãe. Mas nada é simples. Depois do tal de corona por aí, pelo mundo, dona Dileta enclausurou-se em seu castelo, uma casinha na vila de Canoa Quebrada. Só sai pra nada. Quem vai é Mauro, trazendo comida.

A loja de artesanato na qual é vendedor está fechada. Por enquanto, ninguém está demitido. O vírus não chegou, o medo, sim. E dona Dileta fica enfezada, impaciente. O mundo tão difícil lá fora que comemorar alguma coisa parece pecado. Que mãe não comemora os filhos dentro de casa? É um enfezamento com alívio junto. Mauro tá em casa, ela não pode sair, e a filha Maria tá na Itália e o vírus tá pelo mundo. “Deus nos livre”!

VERSO

“Histórias de passar os dias”: série de crônicas narra vivências de quem se reinventa na quarentena

Enquanto não acham uma vacina lá fora, Mauro arruma uma solução pra dentro. Algo que poderá revolucionar as paredes de casa e chacoalhar o ponteiro do tempo e “fazer hora” com o medo lá fora: trocar os papéis. Não de agora, mas do tempo da infância esquecida. Assim, de brincadeira, o adulto se faz a mãe que cuidava do menino. E Mauro, digo, a mãe Mauro, coloca o filho Dileta na rede pra dormir. “Boi, boi, boi. Boi da cara preta…”.

Deitada com um lençol entre o rosto e a mão direita, a mulher finge cochilo sendo o menino, que finge ser a mãe. Se embalam e depois riem da marmota.

As brincadeiras não têm fim: sala, quarto e cozinha viram labirinto de esconde-esconde. “Cadê ela, cadê ela… Achou”. O filho destranca a mãe de dentro do guarda-roupa.

Dona Dileta tem 64 anos, faz parte do grupo de risco da Covid-19, filho nenhum quer esse inimigo invisível. Mas há uma diferença entre estar perto e fazer companhia.

“Eu tento ser essa companhia pra ela”. O medo pode levar todos pra dentro de casa, mas só o amor reúne. Não sei se é pecado dizer, mas o afeto tem competido em circulação com o vírus.

Na famosa vila de Canoa Quebrada, em Aracati, são três casinhas da mesma família Silva Santos, uma emendada na outra, todas com o mesmo quintal. O gás de um serve para todos, a panela também – família é pra essas coisas.

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“Eu tento ser essa companhia pra ela”, diz Mauro sobre vivência com a mãe, dona DiletaFoto: Arquivo Pessoal

E como se o alívio de dentro não bastasse, Mauro se reuniu com os amigos para conseguir doações de alimento às famílias mais pobres de Canoa. Se muitos grupos do WhatsApp são armadilhas de fake news, o avesso disso se chama “Canoa Solidária”. O movimento conseguiu, em dez dias, 250 cestas básicas, comprando de vários mercadinhos. Mauro sai de casa pra entregar e é surpreendido na rua com quem recebe: “quando sai o próximo vídeo?”.

O menino de 44 anos, que de brincadeira se faz mãe da mãe, teve a ideia de reproduzir as ‘marmotas caseiras’ em vídeo e jogar nas redes sociais aquilo que já fazem dentro de casa: comer pirão junto, dançar forró, catar piolho. Fazer companhia.”Eu vejo que tem gente em casa e passa o dia só na Netflix e não conversam entre si. Quando a gente relembra o de antigamente, ajuda os mais velhos a passar por tudo isso”.

Mauro descobriu que, enquanto está dentro de casa, ainda tem muito a viver e boas lembranças para construir com quem mais ama. O tempo é quem revela…

A próxima história, na quinta-feira (9), deverá ser acompanhada com os filhos: “A menina que distraiu o tempo”.

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