Volta às aulas infantis: ‘abraços’ sem toque e salas vagas marcam 1º dia

Escrito por Theyse Vianatheyse.viana@svm.com.br 00:00 / 02 de Setembro de 2020.

Espaços físicos adaptados e novos protocolos causaram estranhamento nos pequenos; parte dos estudantes das creches e pré-escolas na Grande Fortaleza autorizados a retornar às atividades presenciais permaneceu em casa

Foi como um primeiro dia de aula, mas sem aquela euforia típica. A fila de meninos e meninas pequeninos e a algazarra das vozes agudas foram substituídas por chegadas silenciosas, toque entre pés e cotovelos e uma série de medidas de higiene para cruzar a porta de entrada. O primeiro dia de volta às aulas em creches e pré-escolas privadas da Grande Fortaleza, autorizado desde ontem (1º), foi marcado por readaptação de espaços físicos, de professores e do ser-criança no ambiente escolar.

Mariana, 4, além do tradicional uniforme e da lancheira a tiracolo, carregava a máscara de proteção no rosto. Logo na entrada da escolinha, trocou o abraço apertado na “tia” pelo toque entre os pés. Os olhos da pequena sorriam miúdos e tímidos, mas estampavam visivelmente o estranhamento pelas mudanças e distâncias. Segundo a mãe, mesmo tendo uma boa adaptação ao ensino remoto, Mariana demonstrava diariamente a saudade da rotina.

“Há um mês, a gente percebeu que manter o ensino remoto ficou muito cansativo pra ela, que ela estava esgotada e com saudade dos amiguinhos. Isso foi decisivo para que a gente resolvesse voltar hoje”, relata a fisioterapeuta Priscila Pontes, mãe da menina. Adaptar-se ao retorno, aliás, foi um processo compartilhado entre a filha e os pais. “Ainda dá um frio na barriga, mas ponderamos muito a questão emocional. Como não temos ninguém com comorbidade, decidimos tentar. A gente conversou com ela, disse que não poderia ter abraço nem beijinho”, diz Priscila.

O aviso, aliás, tocava num jingle reproduzido nas caixas de som da escola: “sem abraço, sem beijinho, sem aperto de mão – não é desprezo, é apenas proteção”. Para Rodrigo, 5, a advertência vem sendo reforçada há semanas. “Ele tava muito ansioso, com vontade de rever a escola, os amiguinhos. Mas tivemos uma conversa, pra ele se preparar bem e não ter nenhum risco. Falei sobre cuidados com higiene, lavar as mãos, trocar a máscara e evitar pegar nos olhos, no nariz e na boca, e nos colegas”, pontua a mãe, a contadora Eunice Martins, 35.

Na escola privada do bairro Sapiranga, 48 alunos foram autorizados a voltar, na primeira semana de aulas presenciais, mas apenas uma parte deles retornou nessa terça-feira. Segundo a diretora da instituição, Fernanda Denardin, o movimento é normal.

“Fizemos uma pesquisa com os pais, e muitos vão esperar a primeira semana para ver como as coisas vão funcionar. Mas a escola está preparada: todas as pessoas que entram passam por medição de temperatura, tapete sanitizante, higienização das mochilas, e, por último, aplicação de álcool em gel”, lista.

Além das mudanças estruturais, que incluem salas de aula com ventilação natural, instalação de pias e tótens de álcool em gel, distanciamento entre as carteiras e bloqueio de parte dos brinquedos, as instituições precisaram treinar professores e funcionários para a volta.

A “hora do recreio” também será diferente, com cada turma saindo separadamente, em horários determinados. “Houve as mudanças pedagógicas, para educação em saúde das crianças, e os profissionais foram preparados para que pudessem atender a esse novo modelo”, diz Fernanda.

Expectativa

A preparação conferiu mais segurança para o coach Rondinelli Palhares, 42, levar Liz, 6, de volta à sala de aula. “Estávamos com muitas expectativas para que esse momento acontecesse, devido às questões de trabalho e cuidados com a criança. Mas acompanhamos toda a preparação da escola. Temos um pouco de apreensão, claro, porque são muitas pessoas voltando. Mas confiamos. Também conscientizamos bastante a Liz, e esperamos que isso seja colocado em prática”, detalha, interrompido pela inquietude da pequena – que “tava com saudade das brincadeiras, das tarefas, de tudo!”, como exclama.

Já Ana Júlia, 5, rejeitou, de início, a ideia de se distanciar da mãe, a servidora pública Rosana Lima, 38. A quarentena, no fim das contas, estreitou ainda mais o laço entre as duas, o que exigiu uma nova adaptação da criança à escola. “Fiquei com o coração apertado, porque durante 50 dias a gente ficou completamente isolada, só eu, ela, as irmãs e meu marido. Vai ser difícil, vamos sentir falta dela em casa, mas torço pra que dê tudo certo. Se não der, ela volta a ficar no ensino remoto”, afirma.

Segundo Rosana, um dos principais motivos pelos quais optou por retornar ao ensino presencial foi a saúde mental da filha. “Retornamos não só pela falta do pedagógico, mas porque queria que ela tivesse algum convívio social. Sabemos da necessidade do distanciamento, mas passamos muito tempo reclusos, sem ela ver familiares, os avós. Achei que era a hora de proporcionar esse convívio a ela”, analisa.

Legenda: No retorno às aulas presenciais, crianças reaprendem a conviver com menos contatoFoto: Helene Santos

Educadores

O retorno ao convívio e a uma rotina minimamente similar também gera expectativas diversas nos profissionais da educação infantil, como destaca a professora Milena Duarte. “A gente fica tensa, porque essa faixa etária de 4 a 5 anos necessita muito de toque, abraço, beijo, e é algo que precisamos ficar conversando com eles mais ainda, sobre a importância de cuidar de si e do outro. Vamos buscando estratégias para trabalhar mais a oralidade, já que o toque não pode acontecer.”

Durante o período de isolamento, a professora precisou se adaptar ao ensino virtual, em que “encontrava” os alunos via chamada de vídeo, todos os dias, por uma hora. Foi o que amenizou a saudade. “Nesse momento de interação, a gente buscava sempre ouvi-los, acolhê-los, saber como estavam, falar sobre o momento que estamos passando, tratar da parte emocional. E também tivemos esse apoio”, pontua Milena.

Para a pedagoga Fernanda Cavalieri, o retorno é positivo, mas a transição do ensino remoto para a rotina presencial deve ser acompanhada pela família e pela equipe pedagógica. “A criança é um sujeito com emoções, cada experiência é individual. Elas vão voltar para uma nova rotina, sem intervalo, sem contato com o colega, com vários protocolos. Isso pode ser estressante. É preciso escutar a criança e as suas necessidades”, alerta.

A psicóloga e doutora em educação Ticiana Santiago defende que a volta para o dia a dia aconteça com cuidados. O diálogo, analisa, é fundamental para que os pequenos consigam assimilar as mudanças, e os pais podem e devem ajudar nessa adaptação. “É importante colocar isso numa brincadeira, em um desenho, numa música. São muitas crianças com ansiedade perdendo o sono por conta dessa pressão. As mães criaram a ideia do ‘bicho do corona’. Isso precisa ser explicado com cautela”, reforça.

A retomada das aulas presenciais da educação infantil em estabelecimentos privados de Fortaleza e da Região Metropolitana foi autorizada pelo governador Camilo Santana, na última sexta-feira (28), e será feita de forma escalonada, inicialmente com liberação de 30% da capacidade. Quanto à rede pública, ainda não há data de retorno.


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